19 de fevereiro de 2018

Cada macaco no seu galho

Outro dia, uma amiga foi ao otorrinolaringologista olhar algumas questões de audição e problemas nasais. Procurou no site do seu plano de saúde os médicos credenciados e escolheu pela proximidade de endereço. Ficou impressionada com o consultório. O andar inteiro de uma casa, muito bem montado e com requinte.

Enquanto esperava, ela não teve como ignorar o grande painel, na parede em frente, com a descrição de todos os serviços oferecidos pelo profissional – leu tudo, claro. Ali estava uma série de procedimentos estéticos da face executados pelo referido médico (segundo informações da secretária). De acordo com o painel, ele faz aplicação de botox, preenchimento, rinoplastia, lifting e outras tantas cirurgias das quais ela nunca ouvira falar pelos nomes técnicos. Também trata de distúrbios do sono. Uma pequena placa ao lado indicava o encaminhamento para a audiometria.

Durante a consulta, o médico foi muito educado e profissional. Porém, ela não se conteve e perguntou, educadamente, se ele estava abandonando sua especialidade e se dedicando à cirurgia plástica, como indicava o painel. A resposta foi rápida, gentil, também educada e bem completa: “Não, minha função primeira é otorrino, mas sou especialista em pescoço e face. Fundamos a Academia Brasileira de Cirurgia Plástica da Face. Faço todos os tratamentos rejuvenescedores”, explicou à paciente, mostrando algumas fotos de antes e depois de alguns tratamentos realizados por ele.

Depois de atendê-la, encaminhou-a para fazer alguns exames, entre eles audiometria. Como ela tinha visto a placa na sala de espera, perguntou se poderia fazer o procedimento ali mesmo. Foi informada pelo profissional de que o tal serviço havia sido desativado. Ou seja, o que era de sua especialidade não existia mais na clínica.

É impressionante como profissionais de outras áreas têm executado práticas de especialidades de cirurgia plástica, sem terem feito residência na área. O cirurgião plástico estuda, no mínimo, mais três anos depois da residência médica para exercer seu ofício. Mexer no rosto de alguém é bem delicado. Dermatologistas também são especialistas em tratamentos estéticos, tudo bem. O que surpreende é o fato de outras especialidades entrarem nesse ramo, como oftalmologista fazer pálpebras e otorrinos cirurgias plásticas da face. É como se o cirurgião plástico passasse a tratar problemas oculares ou do ouvido, nariz e garganta. Mas dos males o menor, pelo menos são formados em medicina.

Mesmo assim, há riscos. Outra amiga fez pálpebra com uma oftalmologista. Não deu certo, os olhos ficaram com cicatrizes bem feias, que, infelizmente, nem maquiagem consegue esconder. Mas o que é de espantar é odontologista aplicando botox e fazendo cirurgias plásticas. Por sinal, a Justiça já proibiu esse profissional de aplicar toxina botulínica e fazer preenchimentos com fins estéticos. Mesmo assim, muitos dentistas continuam oferecendo tais serviços. Pior: os pacientes concordam e depois reclamam se o resultado dá errado.

Por que as pessoas se iludem assim? Se você precisa de um eletricista vai chamar um carpinteiro ou um motorista para resolver o problema? Se está com pedra nos rins vai atrás de um cirurgião plástico? Que tal ir à fonte certa, principalmente quando a fisionomia e a saúde estão em jogo? Sinceramente, acho que o certo é cada macaco no seu galho.

Isabela Teixeira da Costa

Artigo publicado no Caderno EM Cultura do jornal Estado de Minas

 

19 de fevereiro de 2018

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